Conselho de mãe
Havia prometido que não pisaria
aquele ambiente freqüentado por pessoas que pareciam pertencer à alta classe –
entenda-se esnobe; alta classe ao chegar, uma vez que quando saíam, perdiam a
pose, conversavam com os andarilhos, guardadores de carros e toda espécie de
pessoas que, na chegada eram ignoradas, mas na saída, eram elevadas ao patamar
de gente, às vezes a falta de álcool deixa as pessoas mais humanas. Sim,
humanas!
Três semanas enfiado num hotel, cujo
quarto, impregnado por um odor misto de bolor, perfume, poeira, cera do chão e
suor, com uma vista para o varal onde ficavam estendidas as peças de cama, mesa
e banho lavadas pelo pessoal do hotel. Havia uma alternativa àquela vista; um
quadro com o horário do café, o número da portaria e o regulamento, cuja parte
em letras maiores estava riscada com caneta: “PROIBIDA A ENTRADA DE PESSOAS NÃO
REGISTRADAS NA PORTARIA DO HOTEL”.
Não obstante as condições internas
ao quarto – que o recepcionista fazia questão de dizer apê – que ficava no
primeiro andar, era quase que incessante o barulho dos passos subindo e
descendo pela escada, além de, sendo os corredores cobertos por assoalho de
madeira, era possível saber de qual quarto alguém saía ou chegava. A porta,
cuja fechadura só funcionava pelo lado de fora, de forma semelhante a um cofre
– voltas à esquerda, à direita, socos e safanões -, por dentro era fechada por
uma tramela que, conforme a intensidade dos passos e suas respectivas
vibrações, ia girando até abrir; para evitar tal risco, colocava uma cadeira,
que tinha uma perna quebrada, para escorar – a tramela e a porta.
Resolveu que iria sair, afinal,
era... nem sabia que dia da semana era; para ele, todos dias eram iguais; não,
eram progressivamente piores. Lembrou-se de que, quando voltava do serviço,
passava em frente a um bar que tinha uma daquelas máquinas que, por dinheiro
tocava a música que fosse escolhida – máquina sofista! -, desde que constasse no
repertório. Tomaria umas cervejas da mais barata – será que pelo menos estaria
bem gelada? -, comeria uma batata daquelas em conserva, uma porção de tremoço e
pediria uma nota fiscal na qual constasse refeição, o que não deixaria
de ser verdade. Sempre tivera essa dúvida: a omissão invalida a verdade ou
valida a mentira?
Colocou a melhor roupa, aliás, calça
e camisa, duas únicas peças alternativas ao macacão que era sua farda. Quis
pentear o cabelo, mas não havia espelho no quarto; no banheiro tinha, mas,
àquela hora, deveria haver uma fila pior que a de pronto socorro nos dias
imediatamente anteriores e posteriores aos feriados prolongados, para se forjar
um atestado. Pegou o crachá, caso a polícia o enquadrasse, pelo menos se
identificaria como pertencente à classe trabalhadora, o que já era um
diferencial, visto o número de desempregados.
Apesar de a porta abrir até com uma
tosse de tísico, sentia uma certa resistência em obedecer à ordem do bigodudo
da recepção, que não o deixava levar a chave. Desconfiava que o cara
bisbilhotava o quarto, uma vez que a porta de entrada do hotel, a partir das
vinte e três horas, era trancada à chave e para entrar, tinha que chamá-lo.
Dessa forma, o bigodudo, cujo nome nunca saberia, nada teria a temer; daria
tempo de ajeitar as coisas, fechar o quarto e voltar tranqüilamente. Não tinha
nada de valor mercadológico no quarto; tinha um pente Flamengo que havia
retirado dos espólios do seu avô.
O do bigode olhou com cara de quem
queria perguntar algo, talvez até mesmo por estar sendo quebrada a rotina, mas
percebeu que não era a hora oportuna para conversar com o ilustre hóspede. Por
trajar roupas diferentes, até mesmo a forma de pegar a chave foi mais cordial.
Um pessoal que estava sentado em torno da televisão parou de conversar, porém,
uma vez na calçada, a conversa foi retomada, com altas risadas.
De imediato, foi abordado por uma
prostituta que pediu um cigarro para puxar papo e, sem perda de tempo ofereceu
seus serviços. Mesmo que quisesse, sóbrio não dava para encarar, ébrio, também
não; um cheiro daqueles perfumes que lembra velório, além do hálito, que
obrigava a guarda de uma distância segura; combinava com o quarto do hotel.
O boteco do som e da batata em
conserva estava fechado. Não havia outros nas proximidades. Foi informado de
que havia uns próximos à rodoviária, mas a barra era pesada, do tipo, paga
pra beber reza pra sair, último gole e coisas do gênero. Estava
decidido a não voltar tão cedo para o hotel, nem que fosse para ficar
perambulando pelas ruas, praças ou sentar na avenida e ficar vendo os carros
passarem. Mas também, estava no apetite de tomar algo etílico. Alternativa: a toca
da alta classe; a promessa havia sido feita a si mesmo. Logo, poderia
quebrá-la quando e quantas vezes quisesse.
O conjunto, camisa azul-claro, de
abotoar, com mangas longas, cujo emblema da transportadora mandara retirar,
calça cinza, que também fazia parte daquele uniforme e os sapatos engraxados, o
habilitava a entrar naquele ambiente sem atrair muitos olhares. Recebeu o cartão
– parecia táxi, já iniciava devendo -; três ambientes; o cheiro do primeiro já
surtiu efeito inebriante; cigarros de cravo, canela, charutos, misturados ao
cheiro do álcool que exalava das bebidas, além dos diversos perfumes, menos
desagradáveis que os dos hóspedes do
Spelunka Plaza.
Dirigiu-se ao balcão, que lembrava
aqueles bares de filmes; sabia que não poderia pedir uma da mais barata; teria
que pedir uma das menos caras. Havia um copo com um resto de uma bebida verde
sob o balcão; ficou na espreita, contou até dezenove; não apareceu ninguém;
entornou e devolveu o copo no mesmo lugar. Era algo misturado com menta; não
deveria ser barato, considerando o copo em que era servido. O garçom trouxe a
cerveja dentro de um balde com gelo e uma tulipa, daquelas que bêbados
contumazes levam para casa como troféu. Pediu um Gudan avulso de cravo; há
muito que não fumava um daqueles; às vezes, sentia o cheiro e o gosto daquele
cigarro impossível de ser fumado um na seqüência de outro, mas que, quando não
se tem, dá vontade de fumar uma caixa.
A banda tocava Creedance; o coroa
cabeludo do baixo lembrava o Guartieri, um maluco que conhecera nas noites rock
'n roll; pessoas de todos os jeitos, posturas etc. O cara ao lado fala que está
feliz porque está comemorando seu aniversário e chama para um brinde e, como a
maior parte dos bêbados, dá um abraço e começa a conversar como se fossem
velhos amigos, o que não o incomodava pois, pelo menos, falava sobre a própria
vida, enquanto os vizinhos de quarto queriam saber detalhes da vida alheia. O
aniversariante compartilha uma bebida que denomina aditivo de dojão, de
gosto forte, amargo e doce ao mesmo tempo; não iria perguntar o nome, em se
tratando de uma bebida de graça. O cara tinha cara de boa gente; pelo menos era
simpático.
Bem à frente, numa mesa, uma mulher
com olhar distante, cara de desencanada, olha na direção em que estavam. O
álcool já o deixara mais à vontade e estava correspondendo ao comportamento
amistoso do aniversariante, que à esta altura, já mostrava fotos das crianças e
das ex-mulheres. Entretanto, embora aparentemente sem motivos, começou a olhar
para a mesa e, como a desencanada continuasse olhando, fez um comentário sobre
ela. O aniversariante concordou, realmente era bonita, mas não a conhecia; ele
não era assíduo freqüentador daquele local.
O garçom, vendo a que a garrafa
estava demorando para esvaziar, derramou o restante nos copos - o que aumentou
a cumplicidade entre os recém amigos -, e trouxe outra. O aniversariante pediu
duas tequilas para comemorar; pegou o isqueiro, colocou fogo na bebida e
entornou; disse que, em outra reencarnação, era um dragão e que não poderia
deixar morrer o espírito deste, pois um dia voltaria a sê-lo. Já não havia mais
preocupação com quanto daria, quem e como seria paga a conta.
A desencanada continuava olhando, e
o que mais o instigava, ela o olhava nos lábios; não tirava os olhos de seus
lábios. Ele, propositalmente, mudava de a direção do olhar e acompanhava pela
visão periférica; ela não tirava o olho dos seus lábios. O álcool já o deixara
simpático, sorridente; sorriu para ela, mas não foi correspondido. Ela deve ser
difícil. Vai ver que não quer idéia.
Um cara da banda, vendo que um grupo
já se aglomerava defronte ao palco, deu um grau no som e partiu para um
repertório mais pesado. Ao retornar o olhar à mesa, um casal - um homem com
cara de tocador de trombone em big band e uma mulher com uma roupa que
lembra uniforme de aeromoça. Conversam, gesticulam, sorriem. A desancanada
parece muito à vontade; conversa, gesticula; olhos muito rápidos; enquanto
conversava, seus lábios pareciam se mover em câmara lenta. Se conheceriam há
muito tempo ou foi só uma casualidade, assim como com o aniversariante? Este,
pedira mais duas doses, uma para cada um; assim, acabaria deixando o dragão
bêbado. E o recém amigo também. Não poderia recusar; seria uma tremenda falta
de educação.
Já estava empolgado. Disse ao
aniversariante que assim que as duas pessoas saíssem, iria até a mesa conversar
com a desencanada. O cara disse que pagaria uma rodada para os três, em
comemoração a três motivos especiais: seu aniversário, por ter conhecido o
recém amigo e por este ter conhecido a desencanada; logo emendou, que seriam
quatro motivos, visto também, os três se conhecerem. Olhou para a mesa; os dois
estavam de saída; despediram-se e ela voltou olhar em direção ao balcão,
exatamente onde eles estavam, exatamente nos seus lábios. Estaria ela bêbada?
Não era possível identificar o que tomava. Estaria ele bêbado? Auto-avaliação
de bêbado sobre o grau de bebedeira depende da ocasião. Para ser menos parcial,
ou mais imparcial, achou que estava mais ou menos. Pediu outro Gudan, desta
vez, de canela. Ofereceu ao aniversariante, que agradeceu; só fumava sem
filtro. Ainda bem; Gudan é caro para jogar nas mãos de terceiros.
Nos instantes próximos à decisão,
diversos pensamentos lhe vieram à mente. Estaria ela a fim de conversar? Sobre
o que falar com uma desconhecida e, por sinal, muito estranha? Talvez sobre a
música. Ela parecia estar gostando, pois os pés batiam conforme o ritmo.
Poderia também se tratar de um movimento autômato, involuntário, parecido com
uma divulgação institucional sobre o mal de Parkson**, na qual uma velhinha
acompanhava com os pés um som daqueles que tocam em have; o carinha que
está ao lado da coroa desliga o som e ela continua com os movimentos. Ele não
pode se lembrar disso que cai na risada. Aproveitou a ocasião, ajudado pelo
álcool e fez questão de sorrir na direção da desencanada que, não na mesma
intensidade, correspondeu. Um milésimo de caminho andado. Acena e diz qualquer
coisa, ao que ela responde. Não dá para entender. O som está muito alto. Mas
ela respondeu. Ele pensou em olhar dos lados e atrás para ver se não era para
terceiros, mas não podia demonstrar insegurança; botava fé no próprio taco.
Resolveu ir ao banheiro. Ao
retornar, não voltaria para o lado do aniversariante, que já sorria sozinho e o havia esquecido. É
assim mesmo; depois que vira amigo, esquece. Ao levantar, percebeu que as
pernas já estavam autônomas. O chão parecia mexer; teve a impressão de estar
andando em câmara lenta e, ao apoiar os pés no chão, este parecia um colchão
d'água, ou talvez areia movediça. Ficou preocupado se as pessoas estavam
notando o que se passava com ele. No banheiro daquele ambiente havia enorme
fila; uma funcionária simpática informou - aos berros - que no ambiente
superior também havia banheiros e que estes estavam menos concorridos.
Subir a escada foi difícil. Talvez
tenha sido a escada mais difícil que já teve de subir em toda a vida. Ainda
bem; e se fosse daquelas automáticas, que tem que calcular a hora de entrar e a
hora de sair – lembrou da linha de produção: input, output -;
provavelmente seria mais constrangedor e arriscado. O som abafado de dance
fazia a porta vibrar. O banheiro realmente estava tranqüilo. Que diferença dos
banheiros dos botecos, que fedem, com a fechadura toda molhada e ensebada; e do
hotel, que lembra o Aqüífero Guarani: está sempre cheio dágua, com
pedaços de sabão pelo chão e cabelos no ralo, lâminas de barbear sobre a pia
suja de cuspe e bitucas de cigarros, além daquele cheiro insuportável de
gordura humana misturada à gordura de animais não humanos, usada na fabricação
do sabão. Era um novo cara. Lavou as mãos, passou água no rosto, ajeitou os
cabelos. Até que não estava tão mal; vai ver que Narciso o acompanhava naquele
momento. Se lembrou de quando era vendedor: “se você não valorizar o produto
que vende, quem o valorizará?” - dizia o muquirana do seu ex-patrão.
O espelho estava mexendo; ou era ele
que estava mexendo? Estaria o mundo rodando, tal qual a revolução copernicana
em Kant? Estaria bêbado? Nem tanto, afinal, estava sempre algumas doses abaixo
da sua capacidade. Pensou no que diria à desencanada; iria direto para a mesa
dela; já havia matado os dois copos. Lembrou que não adianta ensaiar, pois na
hora sai tudo diferente. Iria na raça, na cara e na coragem. Ficou com medo de
descer a escada. Parecia que o álcool estava complicando a situação. Parecia
que as pessoas lá embaixo estavam todas olhando para ele, igual quando alguém
vai pular de body jump**. Parecia não ouvir mais nada, exceto aquele
zunido característico de quando se transita por regiões montanhosas.
Resolveu ficar um pouco no ambiente
de cima; dançaria um pouco, ou bastante; assim, o organismo consumiria parte do
álcool. Seu vizinho, que era velho motorista, sempre falava que, quando estiva
muito bêbado e precisava dirigir, corria em volta do ônibus, e o àlcool, era
eliminado junto com o suor. Mas e a desencanada? Ele não prometera que iria
direto para a mesa dela? Não podia perder essa ocasião; não sabia o motivo,
ficara encanado com aquela desencanada. Talvez fosse a forma como ela o olhava,
a forma como ela falava; não dava para saber.
O medo o venceu. Foi para o ambiente
superior. Ao abrir a porta, quase ficou surdo; talvez essa fosse a vantagem
daquele ambiente. Não dava para as pessoas conversarem, só dava para dançar.
Assim, não precisava pensar no que falar para se aproximar de alguém; era só
começar dançar em frente, igual aos filmes, e falar qualquer coisa, até mesmo
aquilo que realmente se quer e não se tem coragem. A outra pessoa não vai
escutar, simplesmente vai sorrir, fingindo que entendeu, e se falar alguma
coisa, finge-se que ouviu e, sem concordar nem discordar, responde com um
sorriso. No dicionário, o sorriso não quer dizer nem sim nem não.
O ambiente estava lotado. Não dava
pra ficar parado, pois o movimento da multidão fazia com que o refratário
dançasse. Como se dançava aquelas músicas? Pelo jeito, era só mexer a cabeça, o
corpo, ou talvez, como manda a Rita Lee, um movimento qualquer, ombros, cabeça
e os pés. Por alguns instantes esquecera a desencanada, até que a avistou
dançando bem na frente de uma enorme caixa de som. Deveria ser muito louca.
Disfarçadamente foi se aproximando, até que estavam de frente, muito próximos.
Parecia que aquele com alto o estava
deixando mais bêbado. A cabeça rodava, ora de um lado, ora de outro, e com ela
o ambiente, também em movimentos imprevisíveis. Não havia nada a conversar; era
só sorrir e fazer que estava conversando. Graças ao aniversariante pelas
bebidas que havia pago: estava à vontade, corajoso. Falou tudo que tinha
vontade. Ela sorria, balançava a cabeça, respondia, mas ele não entendia. Era
aquela jogada; sorrir, falar e fingir que se está ouvindo e entendendo. Jamais
falaria tudo aquilo para ela em situação em que fosse possível a comunicação.
Por estar bem na frente de um
equipamento de iluminação, a possibilidade de visão do rosto dela era intermitente.
O som alto aliado à forte luz com movimentos e intensidades ora regulares, ora
irregulares, fazia com que ficasse mais bêbado. Parecia que ela o ouvia e
entendia; ele estava vendo tudo rodando; ela fazendo movimentos rápidos com o
corpo e olhos, mas sua fala era em câmara lenta. Ele estava confuso. Talvez
tenha passado da conta. Não; ele está sempre abaixo da sua capacidade de
consumo de álcool.
Achou que estava no nível
intermediário, na corda bamba. Era tomar mais uma para equilibrar. Isso mesmo; o
problema era falta de álcool. Ao pé da caixa acústica, diversos copos e
garrafas com restos de bebidas. Escolhe uma que tem uma cor atraente, misto de
azul e vermelho; ou era de uma só cor e ele estava vendo coisas? Haveria
realmente bebidas alí? E se ele abaixasse para pegar e nada houvesse? Estaria
sonhando? Abaixa, pega o copo - ou pensa que o pegou. Bebe - ou pensa que
bebeu. Não, não pode estar sonhando; sentiu o gosto e o cheiro da bebida. Mas
no sonho também é assim. Toma mais outros dois restos. Agora, ele gira ao sabor
do movimento do globo de luz, que está cada vez mais rápido. Era isso, falta de
combustível.
Ela sorri, talvez querendo dizer que
era loucura tomar aquelas bebidas que não se sabia desde quando nem o motivo
pelo qual estavam alí. Ela fala com ele, mas ele não consegue ouvir. Ele deve
estar muito bêbado, pois ela parece que ouve o que ele diz; quando ele
perguntara se ela queria um pouco do resto de bebida, ela respondera que não;
tudo bem que tenha sido um movimento de cabeça, mas foi uma resposta, e a
resposta foi não. Ele diz que quer conversar com ela, mas alí não dá; não
consegue ouvi-la. Ela sorri. Fala alguma coisa que ele não escuta. Ela,
novamente sorri, apontando o ouvido com o indicador e levantando o queixo, com
cara de quem intima, pergunta.
Lembrou-se de que se esquecera do
aniversariante. Não, agora já eram amigos; já não era mais o aniversariante,
mas sim, amigos. Já haviam trocado altas confidências. Mas é sempre assim. Os
amigos abandonam os amigos quando se envolvem de forma mais íntima com alguém.
Bom, pelo menos não havia prometido nada, tipo, uma vez amigos, sempre amigos;
conte comigo à qualquer hora; nada vai estragar nossa amizade, nem mesmo...
Também, a considerar pelo ritmo e nível de consumo de álcool, o aniversariante
já devia estar defronte à banda, querendo subir no palco para, ao microfone,
falar a todo mundo que estava feliz, amava a todos, que era seu aniversário e
queria cantar parabéns; é, aquela clássica que, ordinariamente, toca nos
aniversários.
Nem havia percebido. Ela falava com
ele, mas ele não a ouvia. Será que tinha ficado surdo por ficar tanto tempo em
frente aquela caixa de som que fazia mais barulho que um trio elétrico? Se
fosse colocado um decibilímetro, alí onde estavam, iria acontecer como nos
desenhos animados, quando trinca os dentes de alguma personagem, virando um
monte de pó no chão. Ele pediu para sair dalí, para um lugar em que pudessem
conversar.
Assim que saíram da pista, os
tímpanos respiraram aliviados. Agora, sim, poderiam conversar; será que ele
teria coragem de falar novamente tudo o que falara à ela quando estavam em
frente à caixa de som? Já havia passado o medo da escada; as pessoas já não
olhavam mais para ele; e mesmo que assim não o fosse, ele não estava nem aí. Sua
prioridade agora era outra. Não precisou perguntar aonde ir; a escada já
encaminhava ao primeiro ambiente, mais aconchegante, menos impessoal. Talvez,
na mesa onde ela estava. Lá sim, poderiam conversar. Ele pediria uma música
para os caras da banda; tinham cara de simpáticos. Que música? Lá decidiria. Ou
ela mesma, talvez, pedisse. Todo bêbado pede músicas.
O efeito do álcool parece estar
voltando. A cabeça gira, o corpo também; só que aquela, para um lado, o corpo,
para outro; o ambiente gira em outro sentido, diferente dos dois. Parece o
movimento de translação e rotação, em ritmo acelerado e número de movimentos
triplicado. Em todos os seus anos de bebedeira – e olha que era velho de guerra
-, nunca havia ficado dessa forma. Agora queria sair do transe e não conseguia.
Quanto mais desejava a sanidade, mais louco ficava. Será que ela percebeu que
ele estava naquela situação? Estaria perceptível?
Uma vez, havia visto num desses
programas de televisão, daqueles que dá vontade de cometer suicídio até mesmo em
quem já morreu, que uma boa dose de café bem forte resolveria. Perguntou à ela
se queria um; a reposta foi positiva. Para ele, um duplo, passado três vezes em
um novo pó; sem açúcar; igual noutros tempos, na padaria. Enquanto o café não
vinha – parece que o líquido faz as palavras saírem com mais facilidade,
talvez, por dar tempo de refletir e calcular respostas, enquanto se enche
propositalmente a boca -, ela retocava o batom, para o alívio dele. Tomara que
a operação dure até chegar o café; então, ele tomaria um bom gole, de forma a
entrar logo na corrente sangüínea; o café teria que apostar corrida com o
sangue para poder chegar logo. Poderia haver ambulâncias nas veias para, usando
de suas prerrogativas, levar o café mais rapidamente ao cérebro.
Chegaram os cafés. Ela sorriu para o
espelho do pilar que ficava atrás da mesa, para conferir o batom; olhou para
ele e sorriu. Ele tomou um gole que quase queimou a garganta; só faltava ficar
afônico, para completar. Tentou lembrar quem era o santo das causas
impossíveis; não era muito cristão; nem tinha certeza se realmente existia tal
santo. Teve vontade de pedir um Gudan; um cigarro parece dar segurança, tal
qual uma caneta ou a mão no bolso. Achou melhor não; vai que piorava seu estado
de loucura.
Tentando passar um ar de segurança e
espontaneidade, cruza as pernas, deixa o pescoço e as mãos à vontade e começa a
falar, desde sua chegada à cidade, sobre o hotel onde estava hospedado, sobre
seu serviço, os motivos que o trouxeram até aquele local, e aquelas coisas
todas que se falam quando não se tem – ou não se sabe - o que falar. Ela
acompanhava, à vezes sorrindo, ora balançando a cabeça em sinal de aprovação,
ora de desaprovação. Agora podia ver cada detalhe do seu rosto, até mesmo uma
pequena cicatriz, do lado esquerdo, próxima à boca. Umas poucas marcas de
expressão.
Enquanto ele falava, o olhar dela
estava fixo aos seus lábios. Ele chegou à parte da história, quando conheceu o
aniversariante e depois a viu. Contou sobre os comentários que fizera a respeito
dela, o tempo que ficou esperando para criar coragem, a ida ao banheiro, o
encontro na pista de dança. Sem entrar em detalhes, disse que enquanto
dançavam, havia dito muitas coisas que, nem tomando um caminhão de álcool, ele
conseguiria ludibriar seu sistema de controle e falar, mas como sabia que ela
não ouviria, falou tudo e mais um pouco.
Ele havia prometido – já perdera a
conta de quantas vezes – falar menos, principalmente em ocasiões como aquela;
todo medo que sentia foi embora. Agora ele estava falador. Ela acompanhava,
sorria; ele invejava a capacidade de autocontrole dela; se fosse ele, já o
teria interrompido há muito. Enquanto fez uma pausa para pensar no que iria
falar na seqüência, ela tocou no braço dele para o chamar à atenção e começou a
falar. Não, bem naquela hora, não. A
loucura voltou. Tudo rodava. Ele não conseguia ouvi-la. Não estava muito
barulho. Será que a exposição ao alto volume na pista o ensurdecera
momentaneamente? Será que os muitos anos sem usar o E.P.I., fez com que, exatamente
naquele momento, que ele tanto aguardara, seu sistema auditivo se vingasse?
Ela continuou falando, ele tentava
fazer que estava entendendo, meneando a cabeça e sorrindo. Não, não estava
surdo; ele viu os caras da banda voltarem do intervalo – por que o intervalo
das bandas, mesmo que seja de dez minutos, parece durar uma hora? - e os ouviu
agradecer pela presença do público, ao gerente do estabelecimento, por tê-los
contratado e começaram a cantar. Era verdade ou era tudo mentira?
A desencanada tirou um papel da
bolsa e escreveu que era surda, perguntando se ele estava entendendo o que ela
dizia. Ele ficou perplexo; agora sim, estava louco de verdade. Ele perguntou
como, sendo surda, ela estava dançando? Ela perguntou se ele falava inglês, ao
que ele respondeu que não, com um movimento de cabeça; então ela retorquiu, por
que ele estava cantando uma música cuja letra não conhecia? Ele ficou
constrangido, apesar de bêbado; e olha que quando bêbado, não conhece
sentimentos deste gênero. Como responder à ela, agora que sabia que era surda?
Sendo surda, por que não falava? Que implicações haveria de ter o ouvido com a
boca? Mas ela entendia o que ele falava; como pode ser? Foi pegar o papel para
escrever, mas foi interrompido; ela sinalizou para que falasse. Ele respondeu
que não se interessava pela letra, mas sim, pelo ritmo. Ela sorriu. Disse que
também gostava do ritmo, mesmo sem ouvir a música. Por isso escolhera aquele
local específico, onde estavam naquele momento, perto da banda; da mesma forma,
na pista: perto da caixa de som e bem defronte ao holofote; assim, ela percebia
a vibração emitida pelos alto-falantes e as luzes serviam de complemento.
Explicou a ele que fazia leitura dos lábios e que, desde o momento em que ele
estava sentado ao balcão e, até mesmo quando na pista, ela havia entendido tudo
o que ele havia dito.
Ficou ruborizado. Não sabia mais o
que fazer; nem o que falar. Será que ela estava tirando uma com a cara dele?
Será que ele não estava sonhando de verdade? Poderia ser sonâmbulo e ainda não
ter ciência, ou mesmo, não ter sido avisado. Por que estava acontecendo tudo
aquilo, justo com ele, justamente naquela hora? E se não houvesse ninguém com
ele naquela mesa? E se estivesse na rua, na praça, ou pior, no saguão – que o
porteiro que se identificava como recepcionista, insistia em chamar de hall
– com aquelas pessoas todas olhando para ele?
Não, agora era o fim; ele tinha certeza, viu-a pegando um
celular e se virando de costas; pôde ver até a logomarca da fábrica e as luzes
serem acesas ao ser aberto. Tudo menos aquilo. Não poderia ser. Ele estava
mesmo doido. Parecia quando, nos sonhos, se quer correr e as pernas não se
movem; quando se deseja gritar a as cordas vocais não respondem, apesar de a
boca parecer abrir. Queria sair daquele pesadelo, não do sonho que estava
vivendo, mas sim, do pesadelo. Realmente, estava alucinado. Quando pequeno,
sempre ouvira sua mãe falar que nunca deveria aceitar nada de estranhos. Só
poderia ser aquelas bebidas que o aniversariante lhe ofereceu. Sem dúvida, ele
colocara alguma droga no copo. Por que não guardara e obedecera o conselho de
sua mãe? DROGA!
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